14 de Dez de 2009

Ladaínha dos póstumos Natais

Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que se veja à mesa o meu lugar vazio

Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que hão-de me lembrar de modo menos nítido

Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que só uma voz me evoque a sós consigo

Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que não viva já ninguém meu conhecido

Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que nem vivo esteja um verso deste livro

Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que terei de novo o Nada a sós comigo

Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que nem o Natal terá qualquer sentido

Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que o Nada retome a cor do Infinito

9 de Dez de 2009

Noite de Natal

[A um pequenito, vendedor de jornais]

Bairro elegante, - e que miséria!
Roto e faminto, à luz sidérea,
O pequenito adormeceu...

Morto de frio e de cansaço,
As mãos no seio, erguido o braço
Sobre os jornais, que não vendeu.

A noite é fria; a geada cresta;
Em cada lar, sinais de festa!
E o pobrezinho não tem lar...

Todas as portas já encerradas!
Ó almas puras, bem formadas,
Vede as estrelas a chorar!

Morto de frio e de cansaço,
As mãos no seio, erguido o braço,
Sobre os jornais, que não vendeu,

Em plena rua, que miséria,
Roto e faminto à luz sidérea,
O pequenito adormeceu...

Em torno dele . ó dor sagrada!
Ao ver um círculo sem geada
Na sua morna exalação,

Pensei se o frio descaroável
Do pequenito miserável
Teria mágoa e compaixão...

Sonha talvez, pobre inocente!
Ao frio, à neve, ao luar mordente,
Com o presépio de Belém...

Do céu azul, às horas mortas,
Nossa Senhora, abriu-lhe as portas
E aos orfãozinhos sem ninguém...

E todo o céu se lhe apresenta
Numa grande árvore que ostenta
Coisas dum vívido esplendor,

Onde Jesus, o Deus Menino,
Ao som dum cântico divino,
Colhe as estrelas do Senhor...

E o pequeno extasiado,
Naquele sonho iluminado
De tantas coisas imortais,

- No céu azul, pobre criança!
Pensa talvez, cheio de esp'rança,
Vender melhor os seus jornais...

8 de Dez de 2009

Natal... Na província neva

Natal... Na província neva.
Nos lares aconchegados,
Um sentimento conserva
Os sentimentos passados.

Coração oposto ao mundo,
Como a família é verdade!
Meu pensamento é profundo,
Stou só e sonho saudade.

E como é branca de graça
A paisagem que não sei,
Vista de trás da vidraça
Do lar que nunca terei!

7 de Nov de 2009

Ser Criança

Eu queria ser criança,
Para esconder-me num sorriso,
E roubar uma estrela,
Eu queria ser criança,
Para conduzir o arco-íris,
E trautear uma canção.

Eu queria ser criança,
E segurar-me no vento,
Para tocar nas nuvens,
Eu queria ser criança,
Para no escuro dos teus olhos,
Pintar as cores da alegria.

Com a estrela fazia o céu,
Do arco-íris fazia as paredes,
E das nuvens fazia o meu chão,
Eu queria ser criança,
Agarrar nas asas e voar,
Desafiando o vento,
Com uma cantiga de encantar.

(Retirado do Jornal A voz da póvoa)

1 de Nov de 2009

Devia morrer-se de outra maneira

Devia morrer-se de outra maneira.
Transformarmo-nos em fumo, por exemplo.
Ou em nuvens.
Quando nos sentíssemos cansados, fartos do mesmo sol
a fingir de novo todas as manhãs, convocaríamos
os amigos mais íntimos com um cartão de convite
para o ritual do Grande Desfazer: "Fulano de tal comunica
a V. Exa. que vai transformar-se em nuvem hoje
às 9 horas. Traje de passeio".
E então, solenemente, com passos de reter tempo, fatos
escuros, olhos de lua de cerimónia, viríamos todos assistir
a despedida.
Apertos de mãos quentes. Ternura de calafrio.
"Adeus! Adeus!"
E, pouco a pouco, devagarinho, sem sofrimento,
numa lassidão de arrancar raízes...
(primeiro, os olhos... em seguida, os lábios... depois os cabelos... )
a carne, em vez de apodrecer, começaria a transfigurar-se
em fumo... tão leve... tão subtil... tão pólen...
como aquela nuvem além (vêem?) — nesta tarde de outono
ainda tocada por um vento de lábios azuis...

23 de Out de 2009

Ser poeta

Ser poeta é ser mais alto, é ser maior
Do que os homens! Morder com quem beija!
É ser mendigo e dar como quem seja
Rei do Reino de Aquém e de Além Dor!

É ter de mil desejos o esplendos
E não saber sequer que se deseja!
É ter cá dentro um astro que flameja,
É ter garras e asas de condor.

É ter fome, é ter sede de Infinito!
Por elmo, as manhãs de oiro e cetim ...
É condensar o mundo num só grito!

E é amar-te, assim, perdidamente ...
É seres alma e sangue e vida em mim
E dizê-lo cantando a toda a gente!

17 de Out de 2009

Mal nos conhecemos

Mal nos conhecemos
Inauguramos a palavra amigo!
Amigo é um sorriso
De boca em boca,
Um olhar bem limpo
Uma casa, mesmo modesta, que se oferece.
Um coração pronto a pulsar
Na nossa mão!
Amigo (recordam-se, vocês aí,
Escrupulosos detritos?)
Amigo é o contrário de inimigo!
Amigo é o erro corrigido,
Não o erro perseguido, explorado.
É a verdade partilhada, praticada.
Amigo é a solidão derrotada!
Amigo é uma grande tarefa,
Um trabalho sem fim,
Um espaço útil, um tempo fértil,
Amigo vai ser, é já uma grande festa!