26/08/2009

Poema

Em todas as ruas te encontro
em todas as ruas te perco
conheço tão bem o teu corpo
sonhei tanto a tua figura
que é de olhos fechados que eu ando
a limitar a tua altura
e bebo a água e sorvo o ar
que te atravessou a cintura
tanto tão perto tão real
que o meu corpo se transfigura
e toca o seu próprio elemento
num corpo que já não é seu
num rio que desapareceu
onde um braço teu me procura

Em todas as ruas te encontro
em todas as ruas te perco

17/08/2009

Retrato


Eu não tinha este rosto de hoje,
Assim calmo, assim triste, assim magro,
Nem estes olhos tão vazios,
Nem o lábio amargo.

Eu não tinha estas mãos sem força,
Tão paradas e frias e mortas;
Eu não tinha este coração
Que nem se mostra.

Eu não dei por esta mudança,
Tão simples, tão certa, tão fácil:
- Em que espelho ficou perdida
A minha face?

11/08/2009

Terra

Onde ficava o mundo?
Só pinhais, matos, charnecas e milho
para a fome dos olhos.
Para lá da serra, o azul de outra serra e outra serra ainda.
E o mar? E a cidade? E os Rios?
Caminhos de pedra, sulcados, curtos e estreitos,
onde chiam carros de bois e há poças de chuva.
Onde ficava o mundo?
Nem a alma sabia julgar.
Mas vieram engenheiros e máquinas estranhas.
Em cada dia o povo abraçava outro povo.
E hoje a terra é livre e fácil como o céu das aves:
a estrada branca e menina é uma serpente ondulada
e dela nasce a sede da fuga como as águas dum rio.

07/08/2009

Romance de Vila do Conde

Vila do Conde, espraiada
Entre pinhais, rio e mar!
- Lembra-me Vila do Conde,
Já me ponho a suspirar.

Vento Norte, ai vento norte,
Ventinho da beira mar,
Vento de Vila do Conde,
Que é a minha terra natal!
Nenhum remédio me vale
se me não vens cá buscar,
Vento norte, ai vento norte,
Que em sonhos sinto assoprar...

Bom cheirinho dos pinheiros,
A que não sei outro igual,
Do pinheiral de Mindelo,
Que é um belo pinheiral
Que em Azurara começa
E ao Porto vai acabar...
Se me não vens cá buscar,
Nenhum remédio me vale
Nenhum remédio me vale,
Se te não posso cheirar...

Vila do Conde espraiada
Entre pinhais, rio e mar!
- Lembra-me Vila do Conde,
Mais nada posso lembrar.
Bom cheirinho dos pinheiros...
Sei de um que quase te vale:
É o cheiro da maresia,
- Sargaços, névoas e sal -
A que cheira toda a vila
Nas manhãs de temporal.
Ai mar de Vila do Conde,
Ai mar dos mares, meu mar!
Se me não vens cá buscar,
Nenhum remédio me vale,
Nenhum remédio me vale,
Nem chega a remediar

Abria de manhãzinha,
As vidraças par em par.
Entrava o mar no meu quarto
Só pelo cheiro do ar.
Ia à praia e via a espuma
Rolando pelo areal,
Espuma verde e amarela
Da noite de temporal!
Empurrada pelo vento,
Que em sonhos ouço ventar,
Ia à praia e via a espuma
Pelo areal a rolar...

Vila do Conde espraiada
entre pinhais, rio e mar...

Intimidade


No coração da mina mais secreta,
No interior do fruto mais distante,
Na vibração da nota mais discreta,
No búzio mais convolto e ressoante,


Na camada mais densa da pintura,
Na veia que no corpo mais nos sonde,
Na palavra que diga mais brandura,
Na raiz que mais desce, mais esconde,


No silêncio mais fundo desta pausa,
Em que a vida se fez perenidade,
Procuro a tua mão, decifro a causa
De querer e não crer, final, intimidade.

02/08/2009

José Régio

José Régio, pseudónimo de José Maria dos Reis Pereira. Nasceu em Vila do Conde a 17 de Setembro de 1901. Licenciado em filologia Românica por Coimbra em 1925, ensinou no Liceu de Portalegre durante mais de trinta anos.
Co-fundador da revista Presença em 1927, nela exerce um magistério crítico que inclui a divulgação e valorização dos autores do primeiro modernismo (nomeadamente, Pessoa, Sá-Carneiro e Almada), a abertura do horizonte de leituras para lá da francofilia tradicional no meio português e a teorização do que seja uma "literatura viva", por oposição à "literatice".
Estas preocupações estendem-se às várias facetas da sua obra, que inclui poesia, romance, conto, teatro, ensaio e crítica, constituindo um universo coeso; através da multiplicidade destas formas de expressão, busca José Régio uma voz pessoal e original, não isenta de conflitos: a procura de um equilíbrio entre o humano e o divino, entre o mundo natural e a transcendência, entre o individual e o universal, não exclui o cepticismo nem avanços e recuos nesse caminho de ambiguidades e incertezas.
Talvez por estas preocupações serem, no seu tempo como hoje, polémicas é que a sua obra tem despertado vastas controvérsias por parte da crítica, unânime, no entanto, em o considerar indispensável peça no tabuleiro de um tempo que ajudou, de modo decisivo a definir. Régio foi também um apaixonado admirador e coleccionador de arte popular e reuniu ao longo da sua vida um conjunto de peças de mobiliário, arte sacra, louças, pintura e escultura, que podem ser vistas na casa onde morou em Vila do Conde e que fora pertença de sua tia e madrinha Libânia, onde o escritor veio a morrer em 22 de Dezembro de 1969.

Fonte: Página oficial da Escola Secundária José Régio - Vila do Conde

01/08/2009

Bocage

Manuel Maria Barbosa du Bocage (o Elmano Sadino da Nova Arcádia) é um poeta de transição entre duas escolas literárias bem conhecidas: Classicismo e Romantismo.
Bocage é um poeta de claro-escuro, ora de sombras nocturnas, ora de serena luminosidade. O poeta consumiu-se na busca incessante de uma felicidade impossível, ora inventando mulheres quiméricas, idealizando mulheres de carne e osso que depressa o decepcionavam, quando não o desiludiam de si próprio, ora evadindo-se pela entrega ao prazer sensual. O sentimento agudo da frustração leva-o a pensar no suicídio. A morte horroriza-o e ao mesmo tempo exerce nele uma poderosa sedução: é o esquecimento, a paz. Por isso Bocage elogia a Noite, símbolo da morte, e descreve gostosamente a paisagem nocturna povoada de animais sinistros muito em voga no Pré-Romantismo: o mocho, o corvo.

PERCURSO BIOGRÁFICO:
  • Nascimento em Setúbal a 15 de Setembro de 1756;
  • Embarque para a Índia e passagem pelo Brasil em 1786;
  • Regresso a Lisboa em 1790;
  • Publicação do 1º tomo das Rimas em 1791;
  • Vida dissoluta passada entre os cafés, os salões e uma boémia generalizada;
  • Obsessão do paralelismo existente entre a sua vida e a de Camões;
  • Prisão, por delito contra o Estado ( irreverências antimonárquicas e anticatólicas) em 1797;
  • Estada, por decisão do Tribunal, no Mosteiro de São Bento da Saúde, em 1798;
  • Publicação do 2º tomo das Rimas, em 1799;
  • Publicação do 3º tomo das Rimas, em 1804;
  • Morte a 21 de Dezembro de 1805.

Quantas vezes, Amor, me tens ferido?


Quantas vezes, Amor, me tens ferido?
Quantas vezes, Razão, me tens curado?
Quão fácil de um estado a outro estado
O mortal sem querer é conduzido!

Tal, que em grau venerando, alto e luzido,
Como que até regia a mão do fado,
Onde o Sol, bem de todos, lhe é vedado,
Depois com ferros vis se vê cingido:

Para que o nosso orgulho as asas corte,
Que variedade inclui esta medida,
Este intervalo da existência à morte!

Travam-se gosto, e dor; sossego e lida;
É lei da natureza, é lei da sorte,
Que seja o mal e o bem matiz da vida.