07/11/2009

Ser Criança

Eu queria ser criança,
Para esconder-me num sorriso,
E roubar uma estrela,
Eu queria ser criança,
Para conduzir o arco-íris,
E trautear uma canção.

Eu queria ser criança,
E segurar-me no vento,
Para tocar nas nuvens,
Eu queria ser criança,
Para no escuro dos teus olhos,
Pintar as cores da alegria.

Com a estrela fazia o céu,
Do arco-íris fazia as paredes,
E das nuvens fazia o meu chão,
Eu queria ser criança,
Agarrar nas asas e voar,
Desafiando o vento,
Com uma cantiga de encantar.

(Retirado do Jornal A voz da póvoa)

01/11/2009

Devia morrer-se de outra maneira

Devia morrer-se de outra maneira.
Transformarmo-nos em fumo, por exemplo.
Ou em nuvens.
Quando nos sentíssemos cansados, fartos do mesmo sol
a fingir de novo todas as manhãs, convocaríamos
os amigos mais íntimos com um cartão de convite
para o ritual do Grande Desfazer: "Fulano de tal comunica
a V. Exa. que vai transformar-se em nuvem hoje
às 9 horas. Traje de passeio".
E então, solenemente, com passos de reter tempo, fatos
escuros, olhos de lua de cerimónia, viríamos todos assistir
a despedida.
Apertos de mãos quentes. Ternura de calafrio.
"Adeus! Adeus!"
E, pouco a pouco, devagarinho, sem sofrimento,
numa lassidão de arrancar raízes...
(primeiro, os olhos... em seguida, os lábios... depois os cabelos... )
a carne, em vez de apodrecer, começaria a transfigurar-se
em fumo... tão leve... tão subtil... tão pólen...
como aquela nuvem além (vêem?) — nesta tarde de outono
ainda tocada por um vento de lábios azuis...